sexta-feira, 26 de maio de 2017

 No Deserto Também Há Uma Biblioteca


Percorríamos a rota dos Kasbahs para admirar essa fantástica arquitectura de terra que se funde com o próprio chão pois é dele que saiu o material  para os construir. Os povos berberes souberam dar-lhes a elegância perfeita para uma terra árida em que a única cor discordante é o verde do oásis. Entretanto tínhamos ouvido falar de uma biblioteca mesmo às portas do deserto. Movida pela curiosidade profissional e de viajante e com o consenso dos meus companheiros de viagem, rumámos até Tamegroute. Esta vila, outrora de grande importância no mapa marroquino, fica bem nos confins de Marrocos pois a estrada terminará dali a umas dezenas de quilómetros, quase na fronteira com a Argélia com a qual nem estabelece ligação. Um pouco para trás fica o fértil Vale do Drâa. Para trás fica, também, o seu esplendor de vila com destaque na antiga rota do Tombuctu como grande centro religioso de Marrocos. À nossa chegada ao complexo religioso, a Zauia Naciria, salta-nos ao caminho um guia espontâneo daqueles que os há por todos os cantos do país que depois dos serviços prestados, tentam regatear como melhor sabem o que à partida era gratuito. H Kim, o nosso guia, vai-nos conduzindo pelo complexo religioso, um pouco degradado, em cujos claustros interiores se arrastam pelo chão dia e noite, fazendo do sítio a sua casa, doentes incuráveis à espera de um milagre. H Kim fala-nos do fundador da Zauia Naciria, um teólogo sufista e médico que se interessou pelas doenças mentais. Agora percebemos a esperança no milagre.


A mesquita e o túmulo do fundador estão vedados aos turistas que por ali vão pingando. Apenas aparecem em pequenos grupos ou solitários que se dirigem para as dunas  de Tinfou. Finalmente H Kim abre a porta da biblioteca. Deparamo-nos com um ancião de túnica imaculadamente branca, bastante decrépito, sentado numa cadeira de rodas. É o bibliotecário que desde sempre ali trabalhou.  Podemos admirar, dentro das enormes vitrines embora a sala seja pequena para a noção que temos de uma biblioteca, maravilhosos manuscritos iluminados do séc. XVII em perfeito estado de conservação. Espanta-nos a falta de protecção e de condições ambientais. É o vento seco do deserto que os conserva, explica-nos H Kim. Com muita pena minha não podemos tirar fotos, é compreensível. Actualmente só os alunos da pequena madraça ali mesmo ao lado frequentam a biblioteca. Nos tempos áureos da Zauia Naciria, até do Mali e do Níger vinham alunos para aprender os ensinamentos do Corão. De facto entre a população desta aldeia é visível a presença de bastantes habitantes negros ao contrário de outras zonas de Marrocos. A visita à biblioteca terminou, seguimos com o nosso guia para uma outra ao centro de olaria, mas a biblioteca com belos tesouros, num lugar tão improvável, tão árido, sem ruas pavimentadas, onde o pó tudo invade, não me saiu da memória.