segunda-feira, 31 de outubro de 2016


Turquia: Um  Pot-pourri de Civilizações

  
Navegando num cacilheiro pelas águas calmas do Bósforo como quem desliza pelo Tejo lisboeta, o meu olhar equivocado procura o Terreiro do Paço, mas logo se prende na magnífica arquitectura do Palácio Dolmabahçe erguido mesmo na margem deste estreito que mais parece um imenso rio a dividir a cidade de Istambul pelos dois continentes, Ásia e Europa, talvez querendo lembrar-lhe as diferenças entre ambos. Longe disso! O Bósforo é antes uma grande artéria que corre pelo coração da antiga Constantinopla, alimentando-a de raízes orientais e ocidentais para que a sua cultura se revele única, intensa, inigualável. Constantemente sulcado por frotas de cargueiros, vai impulsionando a economia turca e distribui, diariamente, multidões em transporte marítimo que se deslocam para o seu trabalho. Ainda sob os efeitos mágicos da música de uma bağlama dedilhada com a mestria de um turco que ouvi lá para os lados da Torre de Gálata que poder-se-ia dizer um Carlos Paredes em acordes exóticos, contemplo, deslumbrada, a grandiosidade e beleza exterior do Dolmabahçe, construído ao estilo europeu de finais do Século XIX. No entanto, os seus interiores ricamente decorados, revelam o gosto de ricos sultões rodeados por belas mulheres em airosas danças do ventre.
Envolvente e apaixonante, a Turquia embriaga-nos, baralha-nos os sentidos. É certo que sultões gorduchos, tapetes voadores e turcos conquistadores povoaram o meu imaginário infantil, mas não é razão suficiente. Que mistério é este que paira pelo ar nas ruas e ruelas de Istambul e, mesmo saindo para outros lugares, persegue-nos, cola-se à nossa pele. Respira-se quando olhamos do alto da Torre Gálata para uma cidade maravilhosa dourada pelo sol que vai tombando em cada tarde que termina, admirando os numerosos minaretes, qual agulhas espetadas num céu alaranjado a essa hora, no seu papel de sentinelas do culto, sempre prontas a chamar os fiéis à oração. Será porque esse chamamento místico saído da voz de qualquer um muezim que ecoa pelos altifalantes em todos os cantos da cidade de Istambul e me surpreende no momento em que degusto um delicioso manjar mediterrânico realçado por temperos mais orientais, me faz sentir um tanto profana nestas terras do grande Mustafa Ataturk?
A Turquia é mesmo surpreendente! Não é Ocidente mas também não é Oriente. É a porta para o mundo das diferentes civilizações que marcaram para sempre o seu território. Entro nos primórdios do cristianismo, apreciando a Casa da Virgem onde, alegadamente, terá vivido com o apóstolo João após a crucificação de Cristo e reparo que os fiéis em rituais tão próximos a Fátima, acendem também a sua vela e rezam ao mesmo tempo que colocam as suas preocupações ou aflições num pequeno papel que deixam num dos muros envolventes. Olho para estes rostos sérios da solenidade e descubro culturas ocidentais e orientais a surpreenderem-me nesta devoção comum. Relativamente próximo da Casa da Virgem, o túmulo do apóstolo João pode ser visitado nas magníficas ruínas da Basílica de São João, erguida por Justiniano, no século VI, na região de Éfeso. Os vestígios da Civilização Romana são, na Turquia, de uma magnitude espectacular e Éfeso é um bom exemplo disso, com a famosa Biblioteca de Celso integrada num vastíssimo conjunto de ruínas desta importante cidade portuária greco-romana e um dos berços da filosofia. O mar recuou e, hoje, Éfeso fica afastada do Mediterrâneo. Se as manifestações do Cristianismo se cruzam com as do Império Romano, Bizantino e Otomano em toda a Turquia, todas elas se vão homogeneizar numa elegância perfeita e extremamente bela na grande mesquita Hagia Sophia de Istambul, hoje transformada em museu. Santa Sofia é uma obra-prima da arquitectura bizantina e espelho da História da Turquia. Os maravilhosos ícones do culto ali praticado sob as três religiões, Católica Romana, Ortodoxa e Islâmica, ao correr dos anos, expressos em toda a arquitectura interior, conferem-lhe um clima místico que exerce, de algum modo, um poder sobre nós, intimidando-nos um pouco até. No momento em que a visito, penso como seria o mundo se esta magnífica catedral fosse aberta à prática religiosa dos três credos que outrora ecoaram em cânticos e preces por aquelas enormes colunas de capitéis rendilhados, subindo até às cúpulas e sabe Deus onde mais.
Mergulho em rios de gente que percorre, tranquilamente, as ruas de Istambul, gozando umas pequenas férias, consequência de dois feriados e do fim do Ramadão. A magia continua! Por entre o vai e vem de tanta gente à minha volta, vou observando as suas expressões, gestos, os sinais das suas vivências. Deslocam-se quase sempre em numerosas famílias, constituídas maioritariamente por mulheres e crianças sempre acompanhadas por um ou dois homens. A diversidade do traje feminino cativa a minha atenção. Mesmo à minha frente caminham mulheres todas vestidas de negro onde só o rosto parece espreitar a vida. Mas já vejo outras, elegantemente vestidas em tons pastel, amarelo ou rosa ou azul, mas todo o traje numa  só cor. Trazem gabardinas completamente abotoadas, calças e lenço na cabeça embora o calor aperte. Mais além, pequenos grupos de várias idades, provavelmente da mesma família, de pele de um branco cerâmico e vestes em tecidos muito finos, igualmente brancos, com lenço da mesma cor descendo sobre o rosto. Outras, ainda, de lenços, blusas e saias de flores em cores garridas e em que nada combina. Estou confusa! Serão todas elas turcas ou, algumas, apenas turistas dos países vizinhos? Vejo, também, mulheres modernas, desenvoltas dentro das suas jeans e com os penteados da moda, embora algumas também usem o tradicional lenço. Deslocam-se sozinhas e seguem o seu caminho completamente despreocupadas. Os homens turcos não se destacam pela indumentária que é ocidental, mas antes pela sua gentileza. Se houver um único lugar vazio no autocarro todos insistem para eu me sentar. Quando podem, não dispensam o piropo à mulher europeia. Geralmente são os homens que mais trabalham em contacto com os turistas e o seu habitual sorriso alarga-se ao meu teşekkür ederim (obrigado) que certamente não tem a pronúncia correcta. A pesca parece ser um hobby masculino de peso e, por isso, a Ponte Gálata, de uma ponta a outra, apresenta-se surpreendentemente engalanada com um emaranhado de canas e anzóis pendurados sobre as águas do Corno de Ouro.
Hora de entrar no Grande Bazar de Istambul. Ambiente alucinante! Gente rodopiando como quem dança aos sons de um oud ou de uma bağlama que ecoam pelos corredores labirínticos deste vasto bazar, anunciando botequins de instrumentos musicais para mim desconhecidos.  Por entre todo o rebuliço de comerciantes e compradores, envolvidos num regateio aromatizado pelo cheiro das especiarias e couros que penetram bem forte nas narinas, no meio do colorido de tantos objectos pois aqui vende-se de tudo o que e possa imaginar, eis que me deparo com um calígrafo no seu pequeno estaminé. Fico ali a observar a leveza do gesto, a segurança da caligrafia para dali aparecer o meu nome ocidental cheio de arabescos. Uma recordação  que  guardarei  para  sempre da mágica  Turquia.

Manuela Santos

Hagia Sophia
Palácio Dolmabahçe
Hagia Sophia

Biblioteca de Celso
Mercado das especiarias


domingo, 18 de setembro de 2016

Canadá : Das Montanhas Para a Cidade
Se o objectivo da viagem ao Canadá foi, essencialmente, desfrutar das Montanhas Rochosas indiscutivelmente belas, não falar de algumas das cidades visitadas seria uma grande injustiça. Todas elas, apesar das suas normais diferenças, são bastante harmoniosas e a vida das pessoas desenrola-se aparentemente com tranquilidade e boa educação.
Calgary
Localizada a leste das Montanhas Rochosas do Canadá cerca de 100 km, Calgary foi a cidade que nos recebeu na zona ocidental deste grande país. Com um pouco mais de um milhão de habitantes, não difere, na sua estrutura urbana, de qualquer outra grande cidade do continente norte-americano. Apresenta enormes edifícios concentrados na downtown e zonas residenciais com casas unifamiliares e edifícios de média dimensão a espalharem-se por largos quilómetros em redor. 

Cartaz de promoção do Stampede
Calgary estava em festa. Decorria um dos eventos mais famosos do Canadá, o Calgary Stampede, para o qual tínhamos comprado ingresso através da internet, ainda em Portugal, que nos permitiu viver o espectáculo durante dois dias. De bilhetes na mão, lá entrámos para o enorme recinto ao ar livre, semelhante àqueles que existem para corridas de cavalos. O evento abriu oficialmente com a presença do Mayor da cidade acompanhado pelo chefe da comunidade índia vestido a rigor tal como nos habituámos a ver nos filmes. Assistimos ao tradicional rodeio, a corridas de carroças miniatura e provas de montaria que nos remeteram para os velhos filmes do Oeste Americano. A festa não se ficou por aí. Se durante o dia decorreram as provas ligadas ao gado, à noite exibiram-se numerosas bandas filarmónicas daquelas tipicamente americanas, compostas por um elevado número de elementos que tocavam enquanto executavam complexas coreografias, acompanhadas de mudanças rápidas de cenários. Observadas da parte mais alta das bancadas, toda a sua movimentação resultava num efeito visual espectacular e impossível esquecer. No meio de uma enorme plateia composta essencialmente por canadianos de tal modo entusiastas como se fosse a primeira vez que assistiam, posso dizer que eu, emocionada e com o meu chapéu de cowboy comprado anteriormente, me senti um pouco canadiana. Em toda a cidade, não me lembro de ter visto alguém sem o típico chapéu na cabeça. Frequentemente nos cruzámos com famílias trajadas a rigor, acabadinhas de sair de uma série televisiva do tipo "Dallas". Era o que parecia. Botas de montar ricamente adornadas, coletes com franjas ou bordados, cintos de enormes fivelas chapeadas em prata. As calças de ganga e camisas de xadrez eram aqui rainhas e toda esta multidão festiva se deslocava em grande animação pelas ruas emolduradas por montras exibindo pinturas alusivas à vida dos cowboys. Os índios também não ficaram sem a sua participação. Foi possível visitar as suas típicas casas, as famosas tendas de forma cónica, expostas num enorme recinto. Pareceram-me socialmente integrados, mas voltei a vê-los várias vezes, noutros lugares, ficando com a sensação de que pertenciam ao sector mais pobre da sociedade.

Um pouco mais longe da cidade e do centro da festa, fica o Heritage Park Historic Village. Um conceito de parque museu que nos transportou para o mundo americano do séc. XVIII a inícios do séc. XX. Habitações de madeira destas épocas recolhidas de outros locais, foram ali recolocadas, permitindo recriar uma pequena cidade com o seu banco, padaria onde foi possível comprar pão e bolos e degustá-los no inevitável saloon. Uma loja antiga, os estábulos, a ferraria onde o ferreiro executava pequenos trabalhos, o cárcere, etc. bem como a circulação dos funcionários do museu em veículos da época, ajudaram a dar a credibilidade necessária. A extensão do museu permite a deslocação de uma ponta a outra num comboio a vapor, verdadeiro. Todos os funcionários, cada um nas suas funções, se apresentavam trajados com roupas da época, incluindo o chefe da estação. Para tornar ainda mais real toda a encenação e recriação dos ambientes dos séculos passados, fomos surpreendidos com uma numerosa família Amish no seu peculiar traje, antiquado, que os caracteriza e diferencia no mundo de hoje. Não eram, de modo algum, figurantes, eram simplesmente turistas. Voltámos a encontrar outras famílias noutras cidades do Canadá.

Kamloops

Depois de umas centenas de quilómetros percorridos em cerca de cinco horas de caminho, as Montanhas Rochosas ficaram para trás, mas não o deslumbramento com a sua beleza. A paisagem mudara e a temperatura também. Olhávamos, agora, para campos cultivados, onde os verdes se misturavam com tons dourados consentâneos com os 40°C que por ali suportámos, para descobrirmos manadas de búfalos aproveitando os pastos e sempre supervisionadas pelos "cowboys" nos seus cavalos. Estávamos na região de Kamloops. Situada no centro do Estado de British Columbia e banhada pelo rio Thompson, mostrou-nos aspectos da vida rural que nos remeteram, mais uma vez, para qualquer filme Western. Por isso, visitámos com prazer, um rancho recuperado e transformado em museu onde não faltou a recriação dos modos de vida de então, incluindo um assalto com bandido e pistola no qual fomos nós as "vítimas". Uma excelente simulação. Pertíssimo da cidade de Kamloops, tivemos oportunidade de visitar escavações arqueológicas de vestígios de casas dos índios Secwepemc, uma delas ainda em perfeitas condições, que nos permitiu compreender o espaço doméstico deste povo. A estação arqueológica está integrada no Sewepemc Museum and Heritage Park.

Vancouver
Vancouver
Situada na costa ocidental do Canadá, entre as montanhas e o Pacífico, é uma cidade multicultural muito bem organizada. Pouco ruidosa para uma grande metrópole, com edifícios de média elevação, exceptuando na downtown, não causou impressão negativa para nós, visitantes já acostumados ao silêncio das Montanhas Rochosas. As ruas do centro da cidade apresentavam uma coisa curiosa: esculturas de golfinhos decorados ao gosto dos seus criadores, incluindo um deles caricaturando Elvis Presley para deleite de quem fosse fã. Os passeios impecáveis, possibilitavam a circulação de deficientes ou idosos em cadeiras de rodas eléctricas que, provavelmente por isso mesmo, encontrámos com alguma frequência. A Water Street, rua muito simpática, virada para o comércio e turismo, vem mencionada em qualquer guia e é famosa pelo seu curioso relógio a vapor que fica sempre bem na fotografia. Aqui o que mais me deslumbrou, de facto, foram as lojas de artesanato índio. Encontrei alguns objectos com preços relativamente acessíveis. Das lojas de arte índia já não poderei dizer o mesmo! Peças lindíssimas que não ousei sequer pensar que algum dia as poderia adquirir. A Chinatown em Vancouver é bastante aprazível e, a meu ver, influenciada pela organização e ordem existentes no Canadá. Apresentava-se bem limpa e cuidada e não fosse a decoração das fachadas, das montras e toda a parafernália de produtos chineses à venda, pensaríamos estar apenas num bairro mais modesto da cidade.
Vancouver

Demos uma saltada até aos arredores de Vancouver para visitar o belíssimo Capilano Park. Mais floresta claro e nem por ser uma constante em terras canadianas isso nos causou aborrecimento, era mesmo um prazer desfrutar assim da natureza. Uma das grandes atracções aqui encontradas foi sem dúvida a ponte suspensa a desafiar os mais corajosos nos quais nos incluímos. Com 140 metros de comprimento a uma altura de 70, sempre a baloiçar, a meio do percurso precisei mesmo de arranjar um bocadinho mais de coragem para conseguir olhar para o rio Capilano que lá em baixo corria, indiferente, pelo seu caminho de sempre. Sobrevoar Vancouver em hidroavião foi mais outro desafio para quem não estava habituado. Ver assim a cidade envolvida pelo enorme xaile verde de montanhas e parques florestais, recortada finamente pelos fiordes como se de franjas se tratasse; Observar o transporte de enormes troncos de árvores que, flutuando lá em baixo sobre as águas, iam sendo dirigidos para os lugares de destino; Sobrevoar a baixa altitude sobre tanta beleza, fez-me sentir renascida, leve, embora o cansaço de dezasseis dias de viagem e de milhares de quilómetros percorridos, já desse alguns sinais. Não podia ter terminado de melhor forma a nossa viagem por terras do país a que os europeus chamaram Mundo Novo

Manuela Santos

sábado, 20 de agosto de 2016

Perdida Entre Serras e Entre Rios 
Rio Vouga

De volta às belíssimas encostas verdejantes do rio Paiva, desta vez para caminhar nos Passadiços recentemente criados nas proximidades de Arouca. Amante desta região que alberga a formosa Ester, aldeia de boas recordações onde, agora, constatei com alguma tristeza que parte do pinhal sobranceiro de outrora foi substituído pelo eucalipto, consequências dos incêndios que, paulatinamente, se vão alastrando pelas nossas serras.

Rio Vouga
Tinha saído de Lisboa, manhã cedo, para subir com tranquilidade até ao norte, apreciando os campos ainda verdes e usando a A17 praticamente deserta embora fosse dia de semana. Enfim, empreendimento que não está a ser utilizado como seria de esperar. Quis o destino, a sinalética confusa ou simplesmente a distracção, que o plano inicial do trajecto fosse alterado e, sem querer, fosse atirada lá para os lados de São Pedro do Sul. Perdida entre serras e entre rios, fui forçada a procurar outra estrada que ainda não conhecia. Perdida por obra do acaso mas achada, então, nas margens do rio Vouga, segui pela estrada que o serpenteia atrevidamente em direcção ao topo da Serra da Freita. De janela do carro aberta para sentir o cheiro das plantas silvestres no seu auge, dos fetos completamente verdes debruando a estrada e alcatifando a encosta acima, apercebi-me do som de água correndo por ali perto. Encostei o carro onde foi possível e fui procurar. Ouvindo o canto melodioso das aves acompanhado pela música de fundo das águas límpidas da pequena cascata que encontrei, respirei profundamente. Acabara de assistir ao primeiro concerto destas miniférias. Seguindo por curvas e contracurvas com os meus olhos encharcados de tanto verde que a serra oferecia, cheguei finalmente a Arouca, dando-me por satisfeita com o feliz desvio forçado.
Passadiços de Arouca
Percorrer os Passadiços do Paiva recheados de subidas e descidas, de rampas e degraus, foi um excelente exercício físico e um tranquilizante para o espírito pela beleza da própria paisagem, já familiar, mas sempre deslumbrante. O rio vai galgando por cima dos pedregulhos que se vão desprendendo das vertentes graníticas e assim vai fazendo o seu caminho por estreitos e curvas orlados com vegetação. De tão estreito, na Garganta do Paiva, a margem oposta impõe-se abruptamente aos caminhantes. Quando cheguei a um dos pontos mais altos do passadiço, num pequeno miradouro quase suspenso, ela apresentava-se mesmo ali à minha frente em enormes paredes de granito, onde um riacho avançava em queda livre, para alimentar o próprio rio. De uma beleza imponente, mas transmitindo-me serenidade, fizeram-me sentir leve como se pairasse e fosse tão fácil estender a mão para a refrescar naquela água que se precipitava até que um Verão mais quente lhe corte a liberdade. O espírito estava leve mas as pernas nem por isso, um pouco pesadas até, pela subida e descida das escadas de madeira que, quase na vertical, me levaram ao ponto mais alto sem precisar de saber fazer escalada. A meio de uma sequência dessas escadas, cruzei-me com um grupo de jovens senhoras de mais ou menos setenta anos subindo-as com entusiasmo,  apesar das faces afogueadas. Senti-me esperançada: quem sabe se não voltarei a este lugar quando tiver a mesma idade?

Passadiços de Arouca
O fim da tarde aproximou-se e nada melhor como ficar alojada na serra, melhor dizendo, no pequeno hotel rural Quinta de Novais em Santa Eulália, perto de Arouca. O turismo rural de habitação, de oferta diversificada e já em número bastante razoável no norte de Portugal, foi a opção mais coerente com o passeio do dia. A caminhada da manhã nos passadiços ao longo do rio Paiva tinha sido cansativa, não é em vão que o percurso é considerado de alto grau de dificuldade e é necessário haver essa percepção por parte de cada caminhante. Da varanda da casa de granito recuperada do fundo do tempo, fiquei ali a olhar para a Serra da Freita erguendo-se tão perto dos meus olhos, repleta de castanheiros, pinheiros, azevinhos e outras árvores que os fracos conhecimentos de botânica não me permitiram identificar. Lentamente, o sol foi-se escondendo atrás da montanha enquanto os sinos de cada igreja aldeã tocavam ao desafio em notas de dó ou de sol conforme a distância e o eco que a serra me devolvia. Foi o concerto de fim de tarde!
Garganta do Paiva


Lalim
Aproveitei para alargar o conhecimento do Distrito de Viseu e parti à descoberta de pequenas aldeias. O povoamento em todo o Maciço da Gralheira é disperso. Aldeias e vilas espalham-se pelas encostas com os seus telhados avermelhados contrastando com o verde da floresta e é raro encontrar os tradicionais xistos. As casas reflectem o que se foi fazendo na arquitectura de habitação em Portugal nos últimos trinta anos. Existem em todos os estilos e para todos os gostos. Moradias que podem ser de qualquer região, sempre iguais independentemente de se localizarem no norte ou no sul. Pontualmente, aqui e acolá, avistam-se casas de paredes em granito muito bem recuperadas ou, por fim, os cubos numa arquitectura ultramoderna onde não se vislumbra sequer um telhado. Estes destacam-se bem nas encostas pelo seu próprio modelo que revela o desejo dos seus moradores de desfrutarem as belíssimas paisagens serranas, através de enormes janelas. Seguindo eu pela estrada, sempre divertida com a toponímia local e recordo topónimos não sei de onde, como Verdosa, Penso, Paraduça, e tantos outros nomes mais ou menos improváveis, cheguei, finalmente, à vila de Lalim no concelho de Lamego. Bastante pitoresca, o seu pequeno centro histórico encontra-se bem preservado e é marcado pelo maior edifício, um solar datado do Séc. XVIII e mantido sempre na mesma família até aos dias de hoje, quando esta, decidiu transformá-lo, muito bem, em turismo de habitação. É a Quinta do Terreiro onde fiquei a pernoitar num ambiente muito acolhedor. 

Em poucos passos dei a volta ao centro, apreciando todas as casas de granito completamente
preservadas, e, no largo junto ao pelourinho, mesmo à minha frente, uma jóia medieval. Uma pequena casa granítica que funcionou como cadeia e onde, nos primórdios da vila se reuniram os Homens Bons para decidirem sobre assuntos da comunidade. Esticando mais o passo, caminhei cerca de um quilómetro em busca de uma ponte romana que acabei por encontrar em muito bom estado, implantada no meio de uma paisagem idílica. Regressei à vila, apreciando os trabalhos da lavoura no pequeno vale fértil paralelo à estrada. Mesmo à entrada de Lalim, estava uma mulher, ainda nova, lavando a roupa no tanque comunitário, um hábito ancestral. Talvez por isso a autarquia tenha construído, mesmo ao lado, um tanque em granito maior e mais moderno. Bem aprazível a Vila de Lalim. 





sábado, 2 de julho de 2016

Revisitar a Costa Vicentina


Repetir um percurso espectacular pela Costa Vicentina, realizado há mais ou menos vinte e cinco anos, veio despertar as minhas memórias de uma aventura  por caminhos de cabra e trilhos que serpenteavam a beira das falésias, em busca de praias selvagens. Descer a costa devagar, pernoitar aqui e acolá e encontrar praias completamente intactas como a da Bordeira, da Carrapateira e do Amado entre outras. Não  se via por ali vivalma além  de nós os dois e das espécies animais próprias da falésia com destaque, claro, para as gaivotas que nos sobrevoavam em voos rasantes. Encontrámos apenas um ou outro guardador de cabras, ou então um solitário andarilho e alemão. Da estrada principal largávamos por caminhos de terra batida até  nos aproximarmos o mais possível das falésias e beneficiar da deslumbrante paisagem até  hoje recordada.  O nosso Fiat Uno era uma autêntica carroça de luxo. 
Cabo Sardão
De  Monte Clérigo a Arrifana 
Desta vez, fomos  encontrar estradas alcatroadas, arcaicas, mas mesmo assim melhor caminho que o que tínhamos feito na época. Se há  estradas, há  mais gente. Se há  mais gente, há  mais construção, logo já não existem praias selvagens. Contudo, a construção  ainda não  sufoca a paisagem,  naquelas que eram as praias e falésias  mais bonitas que nós, então, tínhamos visitado. O Carvalhal, Amoreira e Monte Clérigo apresentam aglomerados residenciais de veraneio, tal como a praia do Amado que até tem uma escola de surf e bastantes surfistas. Voltar a caminhar no topo da falésia, agora por curtíssimos trilhos, no meu passo de caracol por conta das vertigens e depois parar para apreciar a beleza do mar a desfazer-se lá em baixo nas rochas, é simplesmente arrebatador. E sentir o cheiro da marcela a sobressair do de outras plantas de mato rasteiro ainda no esplendor da primavera recentemente  terminada. E as gotículas da maresia vicentina trazidas pelo vento fresco que sopra do Atlântico,  tão contrastantes com os 40 graus previstos para o interior alentejano. Que melhor podia eu desejar nestes dias escaldantes de mini férias? Actualmente já não se podem fazer trilhos muito longos no topo das falésias e ainda bem, não  só  por questões de segurança  mas também para preservação da flora rasteira. Foi com satisfação que verifiquei que são frequentes os passadiços e as escadas de madeira que nos encaminham para miradouros estrategicamente colocados ao longo de toda a Costa Vicentina. Sei que irei voltar novamente.

Manuela Santos



terça-feira, 28 de junho de 2016

DESLUMBRAMENTO NAS MONTANHAS ROCHOSAS DO CANADÁ

Harmonia é o conceito que, a meu ver, define muito bem o Canadá. Multiculturalismo, sociedade bastante organizada e comunhão perfeita com a natureza que aqui é bastante generosa e nos abraça com todo o seu esplendor. Um percurso deslumbrante, iniciado em  Calgary (Estado de Alberta), para terminar em Vancouver, na costa do Pacífico, veio confirmar a justa relação do canadiano com o meio ambiente. Um percurso marcado a verde pela grandiosidade de dois magníficos parques naturais, o Banff  National Park que acolhe o espectacular Lake Louise e ainda o Jasper National Park, ambos situados na fronteira do  Estado de British Columbia. São parques como estes que ilustram muito bem toda a beleza das Montanhas Rochosas do Canadá (Canadian Rockies) e  que, ao atravessá-los, me fizeram saltar memórias da infância de quando viajava através das paisagens de postais ilustrados ou das estampas de caixas de bombons. Admirar os glaciares, os lagos a embelezarem as gigantescas cordilheiras graníticas, florestas verdejantes sem sinais de incêndios ou animais que se deixaram observar pelos viajantes, foi a concretização de um sonho antigo que me deixou completamente emocionada.

Durante todo o nosso percurso fomos, constantemente, surpreendidos por quilométricos comboios que penetravam nas montanhas para logo aparecerem empoleirados em altíssimas pontes, lembrando-nos da presença humana, não fôssemos nós pensar que estávamos no paraíso. A dimensão  do campo visual e a imponência da paisagem eram de tal ordem que estes longos comboios pareciam, simplesmente, brinquedo de criança. Chegámos a pequenos centros urbanos respeitadores dos espaços naturais onde estão inseridos, como é o caso das localidades de Jasper e de Banff, ambas recheadas de actividades recreativas de montanha, entre elas a possibilidade de fazer trekking para observação de animais selvagens como o famoso urso preto, o caribu ou o alce.
Emerald Lake

Pelas Montanhas Rochosas, saltámos de um parque natural para outro através de estradas largas e muito bem mantidas, de trânsito soberbamente disciplinado, onde até os trucks de cores garridas e lustrosas pareciam concorrer numa dança caprichosa. Constantemente acompanhados por cordilheiras de cumes branqueados pela persistência da neve e ornamentadas de coníferas na sua base, a cada curva da estrada, éramos surpreendidos pelas suas diferentes perspectivas que se sucediam numa sequência fílmica. Ao nosso redor continuava a dança dos trucks ao som de música tradicional dos Povos das Primeiras Nações, designação politicamente correcta quando os canadianos se referem aos índios. Tínhamos comprado um CD que veio mesmo a propósito ouvir. Completamente embriagados com a paisagem, ainda fomos presenteados com as aparições de ursos mais afoitos que se aproximaram da berma da estrada, alheios ao trânsito que por ela passava, ou então com o retrato de família  que um conjunto de alces e suas crias, banhando-se num charco ali tão perto, ofereceram aos viajantes como nós menos habituados a estas manifestações familiares. Frequentemente, a sinalética indicadora de pontos de interesse convidava-nos a parar. Sempre o fizemos em pequenos parques de estacionamento harmoniosos, rigorosamente limpos, respeitadores do meio ambiente. Neles encontrámos estudantes universitários que estavam em férias, fazendo reparações nos equipamentos públicos. Penetrando pelos trilhos, escutando os ruídos da floresta, chegámos a lugares de cortar a respiração pela provocação de todos os nossos sentidos. As montanhas que admirámos da estrada, vistas mais de perto, revelaram cascatas de águas turbulentas, lagos azul turquesa ou verde esmeralda que pareciam ser o regaço das próprias montanhas que vaidosamente se reflectiam nas suas águas. O degelo dos glaciares provoca estas belíssimas tonalidades e os lagos Louise, Peyto e Emerald são um bom exemplo disso. Junto a estes foi possível caminhar, tropeçando, amiúde, com esquilos brincalhões e inofensivos e avistar, novamente, os corpulentos alces prontos para a fotografia.  

Viajar pelas estradas desta zona do Canadá não é coisa rápida, mas não pelo excesso de trânsito nem tão pouco pelas más condições do asfalto. Na realidade, as solicitações são tantas estrada afora, os convites que a natureza nos faz são tão apelativos que podemos levar um dia inteiro para fazer uma curtíssima distância.


sábado, 4 de junho de 2016

MAURÍCIAS, UMAS FÉRIAS REPOUSANTES

Flic-en-Flac
Era domingo, ainda a manhã se espreguiçava lentamente enquanto eu, pouco liberta do último sono, ia observando pela janela a passarada que rodopiava ao redor dos canteiros da rua. Aproveitavam uma suave temperatura matinal e os manjares que os arbustos, em estado primaveril, lhes ofereciam. Enlevada com os seus cantos, rapidamente o meu pensamento voou e me arrastou para a recordação da viagem que fizemos às Maurícias. Não se pode dizer que foi por acaso, já que este meu estado de tranquilidade ao observar os pardalitos e os melros, foi semelhante ao que ali senti, enquanto estivemos na praia Flic-en-Flac. Por lá, logo pela manhã, o mar tranquilo e de temperatura deliciosa, 25°, convidava-me ao mergulho e a umas boas braçadas, para logo me estender ao sol junto ao jardim do resort. Uma temperatura do ar idêntica à do mar, uma vez que fomos em Julho, na estação mais fresca e seca, criaram um ambiente calmo, sem o calor  exasperante, melhor também para as aves que por ali andavam. Era na vegetação exótica do jardim estendido até às areias da praia que pássaros até então para mim desconhecidos, se mostravam exuberantemente belos. Nunca tinha tido oportunidade de me encontrar numa praia onde as aves se abeiravam de mim completamente despreocupadas. Não podia ser melhor para recuperar energias. Porém, nos primeiros dias de veraneio, andei um pouco apreensiva porque descobri que repartíamos o apartamento com várias lagartixas de cores vivas em vermelhos e amarelos e que, durante a noite, faziam um ruído muito estranho quando se sentiam ameaçadas. Resolvemos deixá-las   em paz e acabei por me habituar à sua companhia.

Na opção de passarmos um curto período de férias nas Ilhas Maurícias, pesou o facto de sentirmos necessidade de férias repousantes, num hotel do tipo tudo incluído, para colocar a leitura em dia, dar uns belos mergulhos e desfrutar de uma praia paradisíaca com uma paisagem de encher o olho. Não encontrámos uma floresta densa a espraiar-se pelas areias como imaginara, mas uma praia igualmente bela, tendo como cenário uma pequena montanha em verde viçoso cuja imagem se reflectia serenamente nas águas mornas e calmas da baía. A paisagem da ilha, pelo menos nos poucos lugares visitados, estava demasiado humanizada com o cultivo de cana-de-açúcar que substituiu a flora nativa e, também, com os vários empreendimentos hoteleiros que servem o turismo de grande impacto na economia local. Julgo, no entanto, que perdemos, algures, pontos de interesse e paisagens um pouco mais exuberantes. Os dias iniciais permitiram-nos repousar e recuperar de uma viagem de treze horas, saborear a belíssima gastronomia multicultural, penso que lhe poderei chamar assim, pois é uma combinação perfeita da cozinha crioula, francesa, indiana e também chinesa. Foi o resultado da tutela a que o território esteve sujeito ao qual se juntou a forte influência da imigração indiana e alguma chinesa. Estas culturas vieram acrescentar um toque especial à confecção da comida dotando-a de sabores exóticos, mas equilibrados para quem não gostar de comida demasiado picante.

Monte Le Morne
Viajar num sistema de tudo incluído obriga-nos a ficar fixos num hotel uma vez que as refeições estão pagas e qualquer saída para fora acrescenta despesas, contudo perde-se o contacto com os locais o que é pouco interessante. Tínhamos que ir a algum lado! Ficou decidido! Iríamos até um local mais a sul, verificar se haveria um bom spot para prática de windsurf. O Luís andava entusiasmado com a modalidade e tinha lido que havia um perto de Le Morne. Apanhámos um autocarro muito velho como há muito não se vê  em Portugal, com um barulho de latas a bater por todo o lado e rodeados de uma população  miscigenada. Negros, mulatos, indianos.  Sentimo-nos  contrastantes e isolados na nossa pele branca,  mas todos os nossos companheiros de viagem não deram a isso a menor importância. Com indicação do cobrador a quem tínhamos solicitado previamente que nos indicasse o local onde deveríamos  sair,  já  tínhamos abandonado a estrada principal cerca de dois ou três quilómetros antes, lá fomos dar seguimento ao propósito desta nossa viagem. Ninguém  mais saiu além de nós os três. Só no fim do dia, de regresso ao hotel, percebemos que o autocarro se tinha desviado especialmente para nos largar. Fiquei com pena de não ter agradecido a gentileza que veio confirmar a já observada hospitalidade do povo maurício. Chegados à zona esperada, deparámo-nos com uma montanha de forma quase cúbica, o monte Le Morne, classificado como Património da Humanidade pela UNESCO. Numa região praticamente plana, esta montanha eleva-se majestosamente para depois se debruçar, quase a pique, sobre as praias qual sentinela vigilante contra piratas há muito desaparecidos. Na realidade a montanha serviu de refúgio a escravos foragidos que se esconderam nas suas grutas e, por isso, tornou-se um símbolo da luta pela liberdade. A praia procurada apresentava um mar demasiado revolto, com ventos agressivos e os windsurfistas estavam em terra. Nada a fazer! Não havendo muito mais para ver por ali além do esplêndido Le Morne, iniciámos o regresso e fomos apanhar novamente o autocarro. Para  isso foi preciso caminhar ainda dois ou três quilómetros a pé.
A viagem em transporte público, neste dia, revelou-se bastante interessante pois permitiu-nos observar comportamentos e assistir a pequenas peripécias. Lembro-me do episódio do negro de estatura muito baixa e, estranhamente, de traços asiáticos, bêbado, que criou algum conflito com o colega de banco onde iam sentados. A zaragata rapidamente foi desfeita devido à perícia e civismo de um passageiro e do próprio cobrador de bilhetes. Fiquei bem impressionada com o modo como o fizeram. Creio que em Portugal não veria o respeito com que o negro foi tratado. Já quase no fim do nosso percurso, entrou uma família,  pai e  mãe  com dois filhos em idades entre os seis e oito  anos. De traje indiano e com ar domingueiro, se é  que aqui fica bem dizê-lo uma vez que o conceito não  se aplica a esta cultura, o que é  facto é  que iam de roupas engomadas, penteados com brilhantina e os rostos completamente cobertos por uma pasta branca. Certamente iriam para alguma cerimónia. Exalavam um odor muito forte a um patchouli qualquer que se espalhou pelo ar intensamente. Comecei a sentir a ponta da língua picar e a minha sorte foi estarmos a chegar ao local de descida. Penso que pela primeira vez cuspi para o chão de tanta saliva acumulada. O autocarro deixou-nos numa paragem da estrada principal, ainda longe da povoação e era preciso transporte para o hotel. Reparámos que não existiam ali outras paragens e muitas pessoas estavam de dedo estendido para a boleia. Fizemos o mesmo. Logo um homem ainda jovem, ex-emigrante em França como nos confidenciou, com um pequeno jipe provavelmente comprado com os dinheiritos que por lá ganhou, se prontificou a levar-nos até à porta do hotel. Não quis nada em troca mas percebi pela alegria estampada no rosto que a possibilidade de contar a sua história e também conhecer a nossa, era o suficiente. Ficou até  impressionado por sermos portugueses, da terra do Figo, segundo a sua expressão. Não estranhámos pois já era habitual, em qualquer outro país, ouvirmos esta frase e percebermos que o jogador continua a ser um ídolo.   
As férias  estavam a chegar ao fim quando apareceu na praia o Antoine. Tinha setenta anos, era negro e franzino, este pescador de pérolas que agora se dedicava à sua venda em adornos femininos. Já não  mergulhava em apneia, quem o fazia então, era o filho. Mostrou-se orgulhoso da sua profissão e trazia consigo o seu portefólio. Jornais franceses e ingleses com reportagens sobre a sua vida e ainda  muitas fotografias, demonstravam uma carreira longa. Antoine acabou por nos confessar que era português e logo disse que o seu nome verdadeiro era António, mas todos lhe chamavam Antoine.  Falava francês, mas ainda sabia algumas palavras na língua lusa. Nas ilhas Maurícias o francês e o inglês coexistem a par do crioulo de base lexical francesa.

Flic-en-Flac
Um dos atractivos turísticos das Ilhas Maurícias é, sem duvida, o famoso  pôr do sol. Observá-lo do areal  é espectáculo a não perder. Talvez tenha sido por isso que fomos surpreendidos com a realização de um casamento em plena praia na  hora em que o sol se prepara para desaparecer no horizonte. Que engraçado contraste o das roupas nupciais entre todos os veraneantes de biquínis e calções. Por esta hora, podem-se dar excelentes passeios de cavalo, tendo como cenário um céu alaranjado a pincelar as águas do mar de manchas de fogo e aguardar que a noite nos envolva completamente. Pôr do sol, excelente gastronomia, gente acolhedora e boa oferta hoteleira fazem deste país um óptimo  lugar para repor energias.
Manuela Santos



domingo, 24 de abril de 2016



Cais palafítico em dia de Páscoa


Cais palafítico
 A Costa da Galé a quem poderíamos chamar, com mais justiça, Costa de Ouro pela riqueza paisagística da sua arriba fóssil de tons ocre dourado pelo sol, beijada pelo mar de um azul intenso em períodos de acalmia, foi o cenário de um almoço pascal em dia de Páscoa solarengo. A areia da praia despida de corpos ávidos de bronze era um convite, não fosse um ventinho bem fresco a pedir para não tirar o casaco mas, mesmo assim, valeu o sol para tirar um pouco o mofo do Inverno de cima dos ossos. A passeata pelas bandas de lá do Sado teve como finalidade  a degustação de um saborosíssimo peixe atlântico, pescado à linha pelos pescadores do Carvalhal como nos foi garantido e quero acreditar que sim, uma vez que tinha um sabor muito fresco. De estômago feliz,  explorando a região em torno dos lamaçais do rio Sado, fomos encontrar o curioso porto palafitico existente desde os anos 50 do século passado, na Carrasqueira (Comporta).
Cais palafítico
Segundo consta, não se conhece nenhum na Europa. Não me admiro! O porto foi a única hipótese que os pescadores encontraram, no seu desenrasca de sobrevivência, para levar a cabo o  arrasto das redes e atracação  dos barcos que as lamas das margens do Sado impedem, em dias de águas mais baixas. Construído em madeira, este cais ramificado por entre o sapal, apresenta-se um pouco degradado e a área envolvente um pouco suja, no entanto pode dar excelentes fotografias ao cair do sol.

Manuela Santos

domingo, 17 de abril de 2016

 Antelope Canyon  - Arizona, USA

Antelope Canyon
Antelope Canyon
Percorríamos um terreno arenoso onde a vagetação rasteira espreitava aqui e acolá, sentados um pouco de esguelha, num jipe conduzido por um corpulento índio Navajo. Descendente  desses heróis dos filmes Western que alimentaram o meu imaginário  na infância e sobre quem sempre nutri uma simpatia, embora a versão de Hollywood, regra geral, os apresentasse como os maus da fita, este "herói" que nos conduzia, no jipe, era o nosso guia que nos iria mostrar o espectacular Antelope Canyon. Num terreno bastante irregular, mais parecia irmos em cima de um quatro patas do que  de um 4×4, nos cerca de cinco quilómetros percorridos que nos deixaram as pernas um pouco adormecidas, mas que valeu o pequeno incómodo. No Arizona, em terras da nação Navajo que é somente a região onde se encontram os descendentes desse grande povo, agora com ocupações ligadas ao turismo, à venda de artesanato, vivendo em muito modestas casas de madeira espalhadas um pouco pelo território circundante do Grand Canyon, é onde se situa o Antelope Canyon. Uma formação rochosa em tons de argila avermelhada e estriada de tons mais claros, apresentando uma enorme fenda resultante dos caprichos da mão escultora da mãe natureza, o Antelope é uma  autêntica obra de arte. Entrámos na fenda, percorrendo corredores muito estreitos e sinuosos, esculpidos em formas peculiares com a autoria da chuva e do vento que penetram por onde podem, deixando autênticas maravilhas para o nosso olhar. Por volta do meio dia, quando a luz do sol incide, na vertical, sobre a fenda, fomos presenteados com jogos de luz qual espectáculo de deuses oferecido a nós simples mortais completamente pasmados. Excelentes fotos podem ser feitas por quem tenha máquina preparada para a situação uma vez que o uso de flash aqui não é muito adequado, o que infelizmente foi o nosso caso.

Manuela Santos

domingo, 10 de abril de 2016

Ester, uma aldeia com nome de mulher

Aldeia de Ester e Rio Paiva
Empoleirada nas arribas do rio Paiva, Ester é uma linda aldeia com nome de mulher. Que saudades da primeira vez que por lá veraneei! Que dizer de Ester de Baixo? Mais formosa que a sua irmã gémea, Ester de Cima, encontra-se separada dela pela estrada que liga Castro Daire a Alvarenga ( N225 ). Na época, a bela Ester de Baixo, ainda era uma pedra preciosa em estado bruto.
Aldeia de Ester 
Fiquei alojada em casa do tio João numa daquelas casas de xisto que salpicavam a encosta até ao rio Paiva e que combinava em simplicidade com o lugar e as suas gentes. Logo pela manhã era ouvir o canto dos pássaros, ver a sua dança ritmada entre uma e outra árvore, numa sintonia perfeita com a cadência musical das águas correntes do rio. Parecia que o fandango do meu Ribatejo se tinha transportado para aquele lugar encravado entre as serras de Montemuro e Arada. Descer ao rio era uma perfeita aventura. Terreno demasiado íngreme sem caminho construído senão o pisado pelos pés de quem ali passava diariamente, anos consecutivos, ladeira abaixo, ladeira acima, labutando para sobreviver. No seu passo lento, demasiado lento para os olhos de quem vive na grande cidade, lá vinha a tia Maria com um feixe de lenha à cabeça - Bom dia! - Booom diiia, respondia ela. A descida fazia-se sempre a travar e os joelhos iam reclamando, mas era recompensada pela beleza do lugar, pela travessia de milheirais românticos e acolhedores de amores furtivos, pelas vidas sem pressa, pela ausência de ruído, cortada apenas pelo "fandango ribatejano". Por fim chegar ao rio. Aí era a cereja em cima do bolo! Velhos moinhos de água, encantados pelo tempo que os quis poupar sem os arruinar completamente, deixando-lhes possibilidade de recuperação por autarquia amiga do património. Banho no rio não podia escapar nem a merenda preparada para a ocasião, nem as belas amoras silvestres colhidas ali mesmo à beira do rio Paiva. Hora de regressar...só era preciso coragem para a subida. 

Apaixonada pela zona, regressei vários anos para explorar outras aldeias ali próximas com suas singularidades e curiosidades patrimoniais. A interessante igreja de Ermida, datada do século XII, de arquitectura românica tal como a própria estatuária entretanto lamentavelmente pilhada, continua a merecer uma visita. O moinho recuperado e os vestigios de ponte medieval em Cabaços, alegram o rio que ali vai mais calmo e permite molhar os pés sobrecarregados pelas caminhadas. Ester foi crescendo, apareceram as casas de emigrante retornado, mas também se recuperaram casas antigas em xisto. A paisagem cortada pelo rio Paiva continua bela e fazer este pequeno percurso na N225 é ir ao encontro de um Portugal genuíno que nos convida a voltar.

Manuela Santos