segunda-feira, 31 de outubro de 2016


Turquia: Um  Pot-pourri de Civilizações

  
Navegando num cacilheiro pelas águas calmas do Bósforo como quem desliza pelo Tejo lisboeta, o meu olhar equivocado procura o Terreiro do Paço, mas logo se prende na magnífica arquitectura do Palácio Dolmabahçe erguido mesmo na margem deste estreito que mais parece um imenso rio a dividir a cidade de Istambul pelos dois continentes, Ásia e Europa, talvez querendo lembrar-lhe as diferenças entre ambos. Longe disso! O Bósforo é antes uma grande artéria que corre pelo coração da antiga Constantinopla, alimentando-a de raízes orientais e ocidentais para que a sua cultura se revele única, intensa, inigualável. Constantemente sulcado por frotas de cargueiros, vai impulsionando a economia turca e distribui, diariamente, multidões em transporte marítimo que se deslocam para o seu trabalho. Ainda sob os efeitos mágicos da música de uma bağlama dedilhada com a mestria de um turco que ouvi lá para os lados da Torre de Gálata que poder-se-ia dizer um Carlos Paredes em acordes exóticos, contemplo, deslumbrada, a grandiosidade e beleza exterior do Dolmabahçe, construído ao estilo europeu de finais do Século XIX. No entanto, os seus interiores ricamente decorados, revelam o gosto de ricos sultões rodeados por belas mulheres em airosas danças do ventre.
Envolvente e apaixonante, a Turquia embriaga-nos, baralha-nos os sentidos. É certo que sultões gorduchos, tapetes voadores e turcos conquistadores povoaram o meu imaginário infantil, mas não é razão suficiente. Que mistério é este que paira pelo ar nas ruas e ruelas de Istambul e, mesmo saindo para outros lugares, persegue-nos, cola-se à nossa pele. Respira-se quando olhamos do alto da Torre Gálata para uma cidade maravilhosa dourada pelo sol que vai tombando em cada tarde que termina, admirando os numerosos minaretes, qual agulhas espetadas num céu alaranjado a essa hora, no seu papel de sentinelas do culto, sempre prontas a chamar os fiéis à oração. Será porque esse chamamento místico saído da voz de qualquer um muezim que ecoa pelos altifalantes em todos os cantos da cidade de Istambul e me surpreende no momento em que degusto um delicioso manjar mediterrânico realçado por temperos mais orientais, me faz sentir um tanto profana nestas terras do grande Mustafa Ataturk?
A Turquia é mesmo surpreendente! Não é Ocidente mas também não é Oriente. É a porta para o mundo das diferentes civilizações que marcaram para sempre o seu território. Entro nos primórdios do cristianismo, apreciando a Casa da Virgem onde, alegadamente, terá vivido com o apóstolo João após a crucificação de Cristo e reparo que os fiéis em rituais tão próximos a Fátima, acendem também a sua vela e rezam ao mesmo tempo que colocam as suas preocupações ou aflições num pequeno papel que deixam num dos muros envolventes. Olho para estes rostos sérios da solenidade e descubro culturas ocidentais e orientais a surpreenderem-me nesta devoção comum. Relativamente próximo da Casa da Virgem, o túmulo do apóstolo João pode ser visitado nas magníficas ruínas da Basílica de São João, erguida por Justiniano, no século VI, na região de Éfeso. Os vestígios da Civilização Romana são, na Turquia, de uma magnitude espectacular e Éfeso é um bom exemplo disso, com a famosa Biblioteca de Celso integrada num vastíssimo conjunto de ruínas desta importante cidade portuária greco-romana e um dos berços da filosofia. O mar recuou e, hoje, Éfeso fica afastada do Mediterrâneo. Se as manifestações do Cristianismo se cruzam com as do Império Romano, Bizantino e Otomano em toda a Turquia, todas elas se vão homogeneizar numa elegância perfeita e extremamente bela na grande mesquita Hagia Sophia de Istambul, hoje transformada em museu. Santa Sofia é uma obra-prima da arquitectura bizantina e espelho da História da Turquia. Os maravilhosos ícones do culto ali praticado sob as três religiões, Católica Romana, Ortodoxa e Islâmica, ao correr dos anos, expressos em toda a arquitectura interior, conferem-lhe um clima místico que exerce, de algum modo, um poder sobre nós, intimidando-nos um pouco até. No momento em que a visito, penso como seria o mundo se esta magnífica catedral fosse aberta à prática religiosa dos três credos que outrora ecoaram em cânticos e preces por aquelas enormes colunas de capitéis rendilhados, subindo até às cúpulas e sabe Deus onde mais.
Mergulho em rios de gente que percorre, tranquilamente, as ruas de Istambul, gozando umas pequenas férias, consequência de dois feriados e do fim do Ramadão. A magia continua! Por entre o vai e vem de tanta gente à minha volta, vou observando as suas expressões, gestos, os sinais das suas vivências. Deslocam-se quase sempre em numerosas famílias, constituídas maioritariamente por mulheres e crianças sempre acompanhadas por um ou dois homens. A diversidade do traje feminino cativa a minha atenção. Mesmo à minha frente caminham mulheres todas vestidas de negro onde só o rosto parece espreitar a vida. Mas já vejo outras, elegantemente vestidas em tons pastel, amarelo ou rosa ou azul, mas todo o traje numa  só cor. Trazem gabardinas completamente abotoadas, calças e lenço na cabeça embora o calor aperte. Mais além, pequenos grupos de várias idades, provavelmente da mesma família, de pele de um branco cerâmico e vestes em tecidos muito finos, igualmente brancos, com lenço da mesma cor descendo sobre o rosto. Outras, ainda, de lenços, blusas e saias de flores em cores garridas e em que nada combina. Estou confusa! Serão todas elas turcas ou, algumas, apenas turistas dos países vizinhos? Vejo, também, mulheres modernas, desenvoltas dentro das suas jeans e com os penteados da moda, embora algumas também usem o tradicional lenço. Deslocam-se sozinhas e seguem o seu caminho completamente despreocupadas. Os homens turcos não se destacam pela indumentária que é ocidental, mas antes pela sua gentileza. Se houver um único lugar vazio no autocarro todos insistem para eu me sentar. Quando podem, não dispensam o piropo à mulher europeia. Geralmente são os homens que mais trabalham em contacto com os turistas e o seu habitual sorriso alarga-se ao meu teşekkür ederim (obrigado) que certamente não tem a pronúncia correcta. A pesca parece ser um hobby masculino de peso e, por isso, a Ponte Gálata, de uma ponta a outra, apresenta-se surpreendentemente engalanada com um emaranhado de canas e anzóis pendurados sobre as águas do Corno de Ouro.
Hora de entrar no Grande Bazar de Istambul. Ambiente alucinante! Gente rodopiando como quem dança aos sons de um oud ou de uma bağlama que ecoam pelos corredores labrirínticos deste vasto bazar, anunciando botequins de instrumentos musicais para mim desconhecidos.  Por entre todo o reboliço de comerciantes e compradores, envolvidos num regateio aromatizado pelo cheiro das especiarias e couros que penetram bem forte nas narinas, no meio do colorido de tantos objectos pois aqui vende-se de tudo o que e possa imaginar, eis que me deparo com um calígrafo no seu pequeno estaminé. Fico ali a observar a leveza do gesto, a segurança da caligrafia para dali aparecer o meu nome ocidental cheio de arabescos. Uma recordação  que  guardarei  para  sempre da mágica  Turquia.

Manuela Santos

Hagia Sophia
Palácio Dolmabahçe
Hagia Sophia

Biblioteca de Celso
Mercado das especiarias