quinta-feira, 23 de março de 2017

Curiosidades -Turquia 2

Tínhamos ido até Pamukkale visitar as famosas bacias calcárias de água termal que pela encosta se derramam em enormes cascatas brancas, num espectáculo inolvidável. Foi aqui neste lugar que nos separámos do grupo para regressarmos, os três, a Istambul e aí explorarmos a cidade por nossa conta o que, confesso, é sempre mais agradável. Para nos levar ao aeroporto de Pamukkale, apareceu-nos um turco engravatado pronto a abrir-nos a porta de um veículo preto, lustroso de tão novo, de estofos em pele branca e muitas aplicações de cromados dourados. Um carro demasiado grande para três pessoas. Fez-me lembrar um carro funerário. Mas esta ideia começou a fervilhar no meu cérebro à medida que avançávamos  pela estrada, numa correria alucinada, com o nosso turco a conduzir só com a mão direita pois a esquerda  pendurava-se pela janela, ziguezagueando um pouco no centro da via e cortando curvas sempre que podia. Conseguimos chegar inteiros ao aeroporto e respirar de alívio.
A Turquia surpreende-nos por tudo e por nada!


Curiosidades-Turquia

Num dos dias de viagem, em direcção a Çanakkale, a cidade a quem Hollywood ofereceu o grande cavalo de madeira usado no filme Tróia e que ali mesmo, no centro da cidade, nos recorda que estamos bem perto do lugar onde gregos e troianos se digladiaram na lendária Guerra de Tróia cantada por Homero, fizemos uma paragem técnica num lugar "pipitoresco". Na berma alargada da estrada havia um quiosque com bebidas para matar a sede se fosse esse o caso e dois pequenos contentores transformados em WC. Claro que a fila das senhoras se alongou como sempre e os dez minutos disponíveis estavam a revelar-se insuficientes. As primeiras mulheres que saíram do contentor vinham com um sorriso enigmático e comentaram: - Não vão acreditar! A cena repetia-se a cada saída do WC. Comecei a ficar intrigada, mas com a pressa ninguém adiantava alguma informação. Chegou a minha vez e entrei! Realmente não podia acreditar no insólito, na inusitada decoração. De todas as paredes e do tecto, jorravam enormes ramos de flores de plástico de fraca qualidade, das mais variadas cores e feitios numa floresta inacreditavelmente compacta. A sanita era a única nota discordante.

A Turquia  surpreende-nos por tudo e por nada.


segunda-feira, 31 de outubro de 2016


Turquia: Um  Pot-pourri de Civilizações

  
Navegando num cacilheiro pelas águas calmas do Bósforo como quem desliza pelo Tejo lisboeta, o meu olhar equivocado procura o Terreiro do Paço, mas logo se prende na magnífica arquitectura do Palácio Dolmabahçe erguido mesmo na margem deste estreito que mais parece um imenso rio a dividir a cidade de Istambul pelos dois continentes, Ásia e Europa, talvez querendo lembrar-lhe as diferenças entre ambos. Longe disso! O Bósforo é antes uma grande artéria que corre pelo coração da antiga Constantinopla, alimentando-a de raízes orientais e ocidentais para que a sua cultura se revele única, intensa, inigualável. Constantemente sulcado por frotas de cargueiros, vai impulsionando a economia turca e distribuindo, diariamente, multidões em transporte marítimo que se deslocam para o seu trabalho. Ainda sob os efeitos mágicos da música de uma bağlama dedilhada com a mestria de um turco que ouvi lá para os lados da Torre de Gálata qual Carlos Paredes em acordes exóticos, contemplo, deslumbrada, a grandiosidade e beleza exterior do Dolmabahçe, construído ao estilo europeu de finais do Século XIX. Os seus interiores ricamente decorados revelam, no entanto , o gosto de ricos sultões rodeados por belas mulheres em airosas danças do ventre.
Envolvente e apaixonante, a Turquia embriaga-nos, baralha-nos os sentidos. É certo que sultões gorduchos, tapetes voadores e turcos conquistadores povoaram o meu imaginário infantil, mas não é razão suficiente. Que mistério é este que paira pelo ar nas ruas e ruelas de Istambul e, mesmo saindo para outros lugares, persegue-nos, cola-se à nossa pele. Respira-se quando olhamos do alto da Torre Gálata para uma cidade maravilhosa dourada pelo sol que vai tombando em cada tarde que termina, admirando os numerosos minaretes qual agulhas espetadas num céu alaranjado a essa hora, no seu papel de sentinelas do culto, sempre prontos a chamar os fiéis à oração. Será porque esse chamamento místico saído da voz de qualquer um muezim que ecoa pelos altifalantes em todos os cantos da cidade de Istambul e me surpreende no momento em que degusto um delicioso manjar mediterrânico realçado por temperos mais orientais, me faz sentir um tanto profana nestas terras do grande Mustafa Ataturk?
A Turquia é mesmo surpreendente! Não é Ocidente mas também não é Oriente. É a porta para o mundo das diferentes civilizações que marcaram para sempre o seu território. Entro nos primórdios do cristianismo, apreciando a Casa da Virgem onde, alegadamente, terá vivido com o apóstolo João após a crucificação de Cristo e reparo que os fiéis em rituais tão próximos a Fátima, acendem também a sua vela e rezam ao mesmo tempo que colocam as suas preocupações ou aflições num pequeno papel que deixam num dos muros envolventes. Olho para estes rostos sérios da solenidade e descubro culturas ocidentais e orientais a surpreenderem-me nesta devoção comum. Relativamente próximo da Casa da Virgem, o túmulo do apóstolo João pode ser visitado nas magníficas ruínas da Basílica de São João, erguida por Justiniano, no século VI, na região de Éfeso. Os vestígios da Civilização Romana são, na Turquia, de uma magnitude espectacular e Éfeso é um bom exemplo disso, com a famosa Biblioteca de Celso integrada num vastíssimo conjunto de ruínas desta importante cidade portuária greco-romana e um dos berços da filosofia. O mar recuou e, hoje, Éfeso fica afastada do Mediterrâneo. Se as manifestações do Cristianismo se cruzam com as do Império Romano, Bizantino e Otomano em toda a Turquia, todas elas se vão homogeneizar numa elegância perfeita e extremamente bela na grande mesquita Hagia Sophia de Istambul, hoje transformada em museu. Santa Sofia é uma obra-prima da arquitectura bizantina e espelho da História da Turquia. Os maravilhosos ícones do culto ali praticado sob as três religiões, Católica Romana, Ortodoxa e Islâmica, ao correr dos anos, expressos em toda a arquitectura interior, conferem-lhe um clima místico que exerce, de algum modo, um poder sobre nós, intimidando-nos um pouco até. No momento em que a visito, penso como seria o mundo se esta magnífica catedral fosse aberta à prática religiosa dos três credos que outrora ecoaram em cânticos e preces por aquelas enormes colunas de capitéis rendilhados, subindo até às cúpulas e sabe Deus onde mais.
Mergulho em rios de gente que percorre, tranquilamente, as ruas de Istambul, gozando umas pequenas férias, consequência de dois feriados e do fim do Ramadão. A magia continua! Por entre o vai e vem de tanta gente à minha volta, vou observando as suas expressões, gestos, os sinais das suas vivências. Deslocam-se quase sempre em numerosas famílias, constituídas maioritariamente por mulheres e crianças sempre acompanhadas por um ou dois homens. A diversidade do traje feminino cativa a minha atenção. Mesmo à minha frente caminham mulheres todas vestidas de negro onde só o rosto parece espreitar a vida. Mas já vejo outras, elegantemente vestidas em tons pastel, amarelo ou rosa ou azul, mas todo o traje numa  só cor. Trazem gabardines completamente abotoadas, calças e lenço na cabeça embora o calor aperte. Mais além, pequenos grupos de várias idades, provavelmente da mesma família, de pele de um branco cerâmico e vestes em tecidos muito finos, igualmente brancos, com lenço da mesma cor descendo sobre o rosto. Outras, ainda, de lenços, blusas e saias de flores em cores garridas e em que nada combina. Estou confusa! Serão todas elas turcas ou, algumas, apenas turistas dos países vizinhos? Vejo, também, mulheres modernas, desenvoltas dentro das suas jeans e com os penteados da moda, embora algumas também usem o tradicional lenço. Deslocam-se sozinhas e seguem o seu caminho completamente despreocupadas. Os homens turcos não se destacam pela indumentária que é ocidental, mas antes pela sua gentileza. Se houver um único lugar vazio no autocarro todos insistem para eu me sentar. Quando podem, não dispensam o piropo à mulher europeia. Geralmente são os homens que mais trabalham em contacto com os turistas e o seu habitual sorriso alarga-se ao meu teşekkür ederim (obrigado) que certamente não tem a pronúncia correcta. A pesca parece ser um hobby masculino de peso e, por isso, a Ponte Gálata, de uma ponta a outra, apresenta-se surpreendentemente engalanada com um emaranhado de canas e anzóis pendurados sobre as águas do Corno de Ouro.
Hora de entrar no Grande Bazar de Istambul. Ambiente alucinante! Gente rodopiando como quem dança aos sons de um oud ou de uma bağlama que ecoam pelos corredores labirínticos deste vasto bazar, anunciando botequins de instrumentos musicais para mim desconhecidos.  Por entre todo o rebuliço de comerciantes e compradores, envolvidos num regateio aromatizado pelo cheiro das especiarias e couros que penetram bem forte nas narinas, no meio do colorido de tantos objectos pois aqui vende-se de tudo o que e possa imaginar, eis que me deparo com um calígrafo no seu pequeno estaminé. Fico ali a observar a leveza do gesto, a segurança da caligrafia para dali aparecer o meu nome ocidental cheio de arabescos. Uma recordação  que  guardarei  para  sempre da mágica  Turquia.

Manuela Santos

Hagia Sophia
Palácio Dolmabahçe
Hagia Sophia

Biblioteca de Celso
Mercado das especiarias


domingo, 18 de setembro de 2016

Canadá : Das Montanhas Para a Cidade
Se o objectivo da viagem ao Canadá foi, essencialmente, desfrutar das Montanhas Rochosas indiscutivelmente belas, não falar de algumas das cidades visitadas seria uma grande injustiça. Todas elas, apesar das suas normais diferenças, são bastante harmoniosas e a vida das pessoas desenrola-se aparentemente com tranquilidade e boa educação.
Calgary
Localizada a leste das Montanhas Rochosas do Canadá cerca de 100 km, Calgary foi a cidade que nos recebeu na zona ocidental deste grande país. Com um pouco mais de um milhão de habitantes, não difere, na sua estrutura urbana, de qualquer outra grande cidade do continente norte-americano. Apresenta enormes edifícios concentrados na downtown e zonas residenciais com casas unifamiliares e edifícios de média dimensão a espalharem-se por largos quilómetros em redor. 

Cartaz de promoção do Stampede
Calgary estava em festa. Decorria um dos eventos mais famosos do Canadá, o Calgary Stampede, para o qual tínhamos comprado ingresso através da internet, ainda em Portugal, que nos permitiu viver o espectáculo durante dois dias. De bilhetes na mão, lá entrámos para o enorme recinto ao ar livre, semelhante àqueles que existem para corridas de cavalos. O evento abriu oficialmente com a presença do Mayor da cidade acompanhado pelo chefe da comunidade índia vestido a rigor tal como nos habituámos a ver nos filmes. Assistimos ao tradicional rodeio, a corridas de carroças miniatura e provas de montaria que nos remeteram para os velhos filmes do Oeste Americano. A festa não se ficou por aí. Se durante o dia decorreram as provas ligadas ao gado, à noite exibiram-se numerosas bandas filarmónicas daquelas tipicamente americanas, compostas por um elevado número de elementos que tocavam enquanto executavam complexas coreografias, acompanhadas de mudanças rápidas de cenários. Observadas da parte mais alta das bancadas, toda a sua movimentação resultava num efeito visual espectacular e impossível esquecer. No meio de uma enorme plateia composta essencialmente por canadianos de tal modo entusiastas como se fosse a primeira vez que assistiam, posso dizer que eu, emocionada e com o meu chapéu de cowboy comprado anteriormente, me senti um pouco canadiana. Em toda a cidade, não me lembro de ter visto alguém sem o típico chapéu na cabeça. Frequentemente nos cruzámos com famílias trajadas a rigor, acabadinhas de sair de uma série televisiva do tipo "Dallas". Era o que parecia. Botas de montar ricamente adornadas, coletes com franjas ou bordados, cintos de enormes fivelas chapeadas em prata. As calças de ganga e camisas de xadrez eram aqui rainhas e toda esta multidão festiva se deslocava em grande animação pelas ruas emolduradas por montras exibindo pinturas alusivas à vida dos cowboys. Os índios também não ficaram sem a sua participação. Foi possível visitar as suas típicas casas, as famosas tendas de forma cónica, expostas num enorme recinto. Pareceram-me socialmente integrados, mas voltei a vê-los várias vezes, noutros lugares, ficando com a sensação de que pertenciam ao sector mais pobre da sociedade.

Um pouco mais longe da cidade e do centro da festa, fica o Heritage Park Historic Village. Um conceito de parque museu que nos transportou para o mundo americano do séc. XVIII a inícios do séc. XX. Habitações de madeira destas épocas recolhidas de outros locais, foram ali recolocadas, permitindo recriar uma pequena cidade com o seu banco, padaria onde foi possível comprar pão e bolos e degustá-los no inevitável saloon. Uma loja antiga, os estábulos, a ferraria onde o ferreiro executava pequenos trabalhos, o cárcere, etc. bem como a circulação dos funcionários do museu em veículos da época, ajudaram a dar a credibilidade necessária. A extensão do museu permite a deslocação de uma ponta a outra num comboio a vapor, verdadeiro. Todos os funcionários, cada um nas suas funções, se apresentavam trajados com roupas da época, incluindo o chefe da estação. Para tornar ainda mais real toda a encenação e recriação dos ambientes dos séculos passados, fomos surpreendidos com uma numerosa família Amish no seu peculiar traje, antiquado, que os caracteriza e diferencia no mundo de hoje. Não eram, de modo algum, figurantes, eram simplesmente turistas. Voltámos a encontrar outras famílias noutras cidades do Canadá.

Kamloops

Depois de umas centenas de quilómetros percorridos em cerca de cinco horas de caminho, as Montanhas Rochosas ficaram para trás, mas não o deslumbramento com a sua beleza. A paisagem mudara e a temperatura também. Olhávamos, agora, para campos cultivados, onde os verdes se misturavam com tons dourados consentâneos com os 40°C que por ali suportámos, para descobrirmos manadas de búfalos aproveitando os pastos e sempre supervisionadas pelos "cowboys" nos seus cavalos. Estávamos na região de Kamloops. Situada no centro do Estado de British Columbia e banhada pelo rio Thompson, mostrou-nos aspectos da vida rural que nos remeteram, mais uma vez, para qualquer filme Western. Por isso, visitámos com prazer, um rancho recuperado e transformado em museu onde não faltou a recriação dos modos de vida de então, incluindo um assalto com bandido e pistola no qual fomos nós as "vítimas". Uma excelente simulação. Pertíssimo da cidade de Kamloops, tivemos oportunidade de visitar escavações arqueológicas de vestígios de casas dos índios Secwepemc, uma delas ainda em perfeitas condições, que nos permitiu compreender o espaço doméstico deste povo. A estação arqueológica está integrada no Sewepemc Museum and Heritage Park.

Vancouver
Vancouver
Situada na costa ocidental do Canadá, entre as montanhas e o Pacífico, é uma cidade multicultural muito bem organizada. Pouco ruidosa para uma grande metrópole, com edifícios de média elevação, exceptuando na downtown, não causou impressão negativa para nós, visitantes já acostumados ao silêncio das Montanhas Rochosas. As ruas do centro da cidade apresentavam uma coisa curiosa: esculturas de golfinhos decorados ao gosto dos seus criadores, incluindo um deles caricaturando Elvis Presley para deleite de quem fosse fã. Os passeios impecáveis, possibilitavam a circulação de deficientes ou idosos em cadeiras de rodas eléctricas que, provavelmente por isso mesmo, encontrámos com alguma frequência. A Water Street, rua muito simpática, virada para o comércio e turismo, vem mencionada em qualquer guia e é famosa pelo seu curioso relógio a vapor que fica sempre bem na fotografia. Aqui o que mais me deslumbrou, de facto, foram as lojas de artesanato índio. Encontrei alguns objectos com preços relativamente acessíveis. Das lojas de arte índia já não poderei dizer o mesmo! Peças lindíssimas que não ousei sequer pensar que algum dia as poderia adquirir. A Chinatown em Vancouver é bastante aprazível e, a meu ver, influenciada pela organização e ordem existentes no Canadá. Apresentava-se bem limpa e cuidada e não fosse a decoração das fachadas, das montras e toda a parafernália de produtos chineses à venda, pensaríamos estar apenas num bairro mais modesto da cidade.
Vancouver

Demos uma saltada até aos arredores de Vancouver para visitar o belíssimo Capilano Park. Mais floresta claro e nem por ser uma constante em terras canadianas isso nos causou aborrecimento, era mesmo um prazer desfrutar assim da natureza. Uma das grandes atracções aqui encontradas foi sem dúvida a ponte suspensa a desafiar os mais corajosos nos quais nos incluímos. Com 140 metros de comprimento a uma altura de 70, sempre a baloiçar, a meio do percurso precisei mesmo de arranjar um bocadinho mais de coragem para conseguir olhar para o rio Capilano que lá em baixo corria, indiferente, pelo seu caminho de sempre. Sobrevoar Vancouver em hidroavião foi mais outro desafio para quem não estava habituado. Ver assim a cidade envolvida pelo enorme xaile verde de montanhas e parques florestais, recortada finamente pelos fiordes como se de franjas se tratasse; Observar o transporte de enormes troncos de árvores que, flutuando lá em baixo sobre as águas, iam sendo dirigidos para os lugares de destino; Sobrevoar a baixa altitude sobre tanta beleza, fez-me sentir renascida, leve, embora o cansaço de dezasseis dias de viagem e de milhares de quilómetros percorridos, já desse alguns sinais. Não podia ter terminado de melhor forma a nossa viagem por terras do país a que os europeus chamaram Mundo Novo

Manuela Santos

sábado, 20 de agosto de 2016

Perdida Entre Serras e Entre Rios 
Rio Vouga

De volta às belíssimas encostas verdejantes do rio Paiva, desta vez para caminhar nos Passadiços recentemente criados nas proximidades de Arouca. Amante desta região que alberga a formosa Ester, aldeia de boas recordações onde, agora, constatei com alguma tristeza que parte do pinhal sobranceiro de outrora foi substituído pelo eucalipto, consequências dos incêndios que, paulatinamente, se vão alastrando pelas nossas serras.

Rio Vouga
Tinha saído de Lisboa, manhã cedo, para subir com tranquilidade até ao norte, apreciando os campos ainda verdes e usando a A17 praticamente deserta embora fosse dia de semana. Enfim, empreendimento que não está a ser utilizado como seria de esperar. Quis o destino, a sinalética confusa ou simplesmente a distracção, que o plano inicial do trajecto fosse alterado e, sem querer, fosse atirada lá para os lados de São Pedro do Sul. Perdida entre serras e entre rios, fui forçada a procurar outra estrada que ainda não conhecia. Perdida por obra do acaso mas achada, então, nas margens do rio Vouga, segui pela estrada que o serpenteia atrevidamente em direcção ao topo da Serra da Freita. De janela do carro aberta para sentir o cheiro das plantas silvestres no seu auge, dos fetos completamente verdes debruando a estrada e alcatifando a encosta acima, apercebi-me do som de água correndo por ali perto. Encostei o carro onde foi possível e fui procurar. Ouvindo o canto melodioso das aves acompanhado pela música de fundo das águas límpidas da pequena cascata que encontrei, respirei profundamente. Acabara de assistir ao primeiro concerto destas miniférias. Seguindo por curvas e contracurvas com os meus olhos encharcados de tanto verde que a serra oferecia, cheguei finalmente a Arouca, dando-me por satisfeita com o feliz desvio forçado.
Passadiços de Arouca
Percorrer os Passadiços do Paiva recheados de subidas e descidas, de rampas e degraus, foi um excelente exercício físico e um tranquilizante para o espírito pela beleza da própria paisagem, já familiar, mas sempre deslumbrante. O rio vai galgando por cima dos pedregulhos que se vão desprendendo das vertentes graníticas e assim vai fazendo o seu caminho por estreitos e curvas orlados com vegetação. De tão estreito, na Garganta do Paiva, a margem oposta impõe-se abruptamente aos caminhantes. Quando cheguei a um dos pontos mais altos do passadiço, num pequeno miradouro quase suspenso, ela apresentava-se mesmo ali à minha frente em enormes paredes de granito, onde um riacho avançava em queda livre, para alimentar o próprio rio. De uma beleza imponente, mas transmitindo-me serenidade, fizeram-me sentir leve como se pairasse e fosse tão fácil estender a mão para a refrescar naquela água que se precipitava até que um Verão mais quente lhe corte a liberdade. O espírito estava leve mas as pernas nem por isso, um pouco pesadas até, pela subida e descida das escadas de madeira que, quase na vertical, me levaram ao ponto mais alto sem precisar de saber fazer escalada. A meio de uma sequência dessas escadas, cruzei-me com um grupo de jovens senhoras de mais ou menos setenta anos subindo-as com entusiasmo,  apesar das faces afogueadas. Senti-me esperançada: quem sabe se não voltarei a este lugar quando tiver a mesma idade?

Passadiços de Arouca
O fim da tarde aproximou-se e nada melhor como ficar alojada na serra, melhor dizendo, no pequeno hotel rural Quinta de Novais em Santa Eulália, perto de Arouca. O turismo rural de habitação, de oferta diversificada e já em número bastante razoável no norte de Portugal, foi a opção mais coerente com o passeio do dia. A caminhada da manhã nos passadiços ao longo do rio Paiva tinha sido cansativa, não é em vão que o percurso é considerado de alto grau de dificuldade e é necessário haver essa percepção por parte de cada caminhante. Da varanda da casa de granito recuperada do fundo do tempo, fiquei ali a olhar para a Serra da Freita erguendo-se tão perto dos meus olhos, repleta de castanheiros, pinheiros, azevinhos e outras árvores que os fracos conhecimentos de botânica não me permitiram identificar. Lentamente, o sol foi-se escondendo atrás da montanha enquanto os sinos de cada igreja aldeã tocavam ao desafio em notas de dó ou de sol conforme a distância e o eco que a serra me devolvia. Foi o concerto de fim de tarde!
Garganta do Paiva


Lalim
Aproveitei para alargar o conhecimento do Distrito de Viseu e parti à descoberta de pequenas aldeias. O povoamento em todo o Maciço da Gralheira é disperso. Aldeias e vilas espalham-se pelas encostas com os seus telhados avermelhados contrastando com o verde da floresta e é raro encontrar os tradicionais xistos. As casas reflectem o que se foi fazendo na arquitectura de habitação em Portugal nos últimos trinta anos. Existem em todos os estilos e para todos os gostos. Moradias que podem ser de qualquer região, sempre iguais independentemente de se localizarem no norte ou no sul. Pontualmente, aqui e acolá, avistam-se casas de paredes em granito muito bem recuperadas ou, por fim, os cubos numa arquitectura ultramoderna onde não se vislumbra sequer um telhado. Estes destacam-se bem nas encostas pelo seu próprio modelo que revela o desejo dos seus moradores de desfrutarem as belíssimas paisagens serranas, através de enormes janelas. Seguindo eu pela estrada, sempre divertida com a toponímia local e recordo topónimos não sei de onde, como Verdosa, Penso, Paraduça, e tantos outros nomes mais ou menos improváveis, cheguei, finalmente, à vila de Lalim no concelho de Lamego. Bastante pitoresca, o seu pequeno centro histórico encontra-se bem preservado e é marcado pelo maior edifício, um solar datado do Séc. XVIII e mantido sempre na mesma família até aos dias de hoje, quando esta, decidiu transformá-lo, muito bem, em turismo de habitação. É a Quinta do Terreiro onde fiquei a pernoitar num ambiente muito acolhedor. 

Em poucos passos dei a volta ao centro, apreciando todas as casas de granito completamente
preservadas, e, no largo junto ao pelourinho, mesmo à minha frente, uma jóia medieval. Uma pequena casa granítica que funcionou como cadeia e onde, nos primórdios da vila se reuniram os Homens Bons para decidirem sobre assuntos da comunidade. Esticando mais o passo, caminhei cerca de um quilómetro em busca de uma ponte romana que acabei por encontrar em muito bom estado, implantada no meio de uma paisagem idílica. Regressei à vila, apreciando os trabalhos da lavoura no pequeno vale fértil paralelo à estrada. Mesmo à entrada de Lalim, estava uma mulher, ainda nova, lavando a roupa no tanque comunitário, um hábito ancestral. Talvez por isso a autarquia tenha construído, mesmo ao lado, um tanque em granito maior e mais moderno. Bem aprazível a Vila de Lalim. 





sábado, 2 de julho de 2016

Revisitar a Costa Vicentina


Repetir um percurso espectacular pela Costa Vicentina, realizado há mais ou menos vinte e cinco anos, veio despertar as minhas memórias de uma aventura  por caminhos de cabra e trilhos que serpenteavam a beira das falésias, em busca de praias selvagens. Descer a costa devagar, pernoitar aqui e acolá e encontrar praias completamente intactas como a da Bordeira, da Carrapateira e do Amado entre outras. Não  se via por ali vivalma além  de nós os dois e das espécies animais próprias da falésia com destaque, claro, para as gaivotas que nos sobrevoavam em voos rasantes. Viemos a encontrar apenas um ou outro guardador de cabras e um alemão, um solitário andarilho. Da estrada principal largávamos por caminhos de terra batida até  nos aproximarmos o mais possível das falésias e beneficiar da deslumbrante paisagem até  hoje recordada.  O nosso Fiat Uno era uma autêntica carroça de luxo. 
Cabo Sardão
De  Monte Clérigo a Arrifana 
Desta vez, fomos  encontrar estradas alcatroadas, arcaicas, mas mesmo assim melhor caminho que o que tínhamos feito na época. Se há  estradas, há  mais gente. Se há  mais gente, há  mais construção, logo já não existem praias selvagens. Contudo, as moradias e aldeamentos  ainda não  sufocam a paisagem,  naquelas que eram as praias e falésias  mais bonitas que ate à data tínhamos visitado. O Carvalhal, Amoreira e Monte Clérigo apresentam aglomerados residenciais de veraneio, tal como a praia do Amado que até tem uma escola de surf e bastantes surfistas. Voltar a caminhar no topo da falésia, agora por curtíssimos trilhos, no meu passo de caracol por conta das vertigens e depois parar para apreciar a beleza do mar a desfazer-se lá em baixo nas rochas, é simplesmente arrebatador. E sentir o cheiro da marcela a sobressair por entre o das outras plantas de mato rasteiro ainda no esplendor da primavera recentemente  terminada. E as gotículas da maresia vicentina trazidas pelo vento fresco que sopra do Atlântico,  tão contrastantes com os 40 graus previstos para o interior alentejano. Que melhor podia eu desejar nestes dias escaldantes de mini férias? Actualmente já não se podem fazer trilhos muito longos no topo das falésias e ainda bem, não  só  por questões de segurança  mas também para preservação da flora rasteira. Foi com satisfação que verifiquei que são frequentes os passadiços e as escadas de madeira que nos encaminham para miradouros estrategicamente colocados ao longo de toda a Costa Vicentina. Sei que irei voltar novamente.

Manuela Santos



terça-feira, 28 de junho de 2016

DESLUMBRAMENTO NAS MONTANHAS ROCHOSAS DO CANADÁ
Emerald Lake

Harmonia é o conceito que, a meu ver, define muito bem o Canadá. Multiculturalismo, sociedade bastante organizada e comunhão perfeita com a natureza que aqui é bastante generosa e nos abraça com todo o seu esplendor. Um percurso deslumbrante, iniciado em  Calgary (Estado de Alberta), para terminar em Vancouver, na costa do Pacífico, veio confirmar a justa relação do canadiano com o meio ambiente. Um percurso marcado a verde pela grandiosidade de dois magníficos parques naturais, o Banff  National Park que acolhe o espectacular Lake Louise e ainda o Jasper National Park, ambos situados na fronteira do  Estado de British Columbia. São parques como estes que ilustram muito bem toda a beleza das Montanhas Rochosas do Canadá (Canadian Rockies) e  que, ao atravessá-los, me fizeram saltar memórias da infância de quando viajava através das paisagens de postais ilustrados ou das estampas de caixas de bombons. Admirar os glaciares, os lagos a embelezarem as gigantescas cordilheiras graníticas, florestas verdejantes sem sinais de incêndios ou animais que se deixaram observar pelos viajantes, foi a concretização de um sonho antigo que me deixou completamente emocionada.

Durante todo o nosso percurso fomos, constantemente, surpreendidos pelos quilométricos comboios que penetravam nas montanhas para logo aparecerem empoleirados em altíssimas pontes, lembrando-nos da presença humana, não fôssemos nós pensar que estávamos no paraíso. A dimensão  do campo visual e a imponência da paisagem eram de tal ordem que estes longos comboios pareciam, simplesmente, brinquedo de criança. Chegámos a pequenos centros urbanos respeitadores dos espaços naturais onde estão inseridos, como é o caso das localidades de Jasper e de Banff, ambas recheadas de actividades recreativas de montanha, entre elas a possibilidade de fazer trekking para observação de animais selvagens como o famoso urso preto, o caribu ou o alce.

Pelas Montanhas Rochosas, saltámos de um parque natural para outro através de estradas largas e muito bem mantidas, de trânsito soberbamente disciplinado, onde até os trucks de cores garridas e lustrosas pareciam concorrer numa dança caprichosa. Constantemente acompanhados por cordilheiras de cumes branqueados pela persistência da neve e ornamentadas de coníferas na sua base, a cada curva da estrada, éramos surpreendidos pelas suas diferentes perspectivas que se sucediam numa sequência fílmica. Ao nosso redor continuava a dança dos trucks ao som de música tradicional dos Povos das Primeiras Nações, designação politicamente correcta quando os canadianos se referem aos índios. Tínhamos comprado um CD que veio mesmo a propósito ouvir. Completamente embriagados com a paisagem, ainda fomos presenteados com as aparições de ursos mais afoitos que se aproximaram da berma da estrada, alheios ao trânsito que por ela passava, ou então com o retrato de família  que um conjunto de alces e suas crias, banhando-se num charco ali tão perto, ofereceram aos viajantes como nós menos habituados a estas manifestações familiares. Frequentemente, a sinalética indicadora de pontos de interesse convidava-nos a parar. Sempre o fizemos em pequenos parques de estacionamento harmoniosos, rigorosamente limpos, respeitadores do meio ambiente. Neles encontrámos estudantes universitários que estavam em férias, fazendo reparações nos equipamentos públicos. Penetrando pelos trilhos, escutando os ruídos da floresta, chegámos a lugares de cortar a respiração pela provocação de todos os nossos sentidos. As montanhas que admirámos da estrada, vistas mais de perto, revelaram cascatas de águas turbulentas, lagos azul turquesa ou verde esmeralda que pareciam ser o regaço das próprias montanhas que vaidosamente se reflectiam nas suas águas. O degelo dos glaciares provoca estas belíssimas tonalidades e os lagos Louise, Peyto e Emerald são um bom exemplo disso. Junto a estes foi possível caminhar, tropeçando, amiúde, com esquilos brincalhões e inofensivos e avistar, novamente, os corpulentos alces prontos para a fotografia.  

Viajar pelas estradas desta zona do Canadá não é coisa rápida, mas não pelo excesso de trânsito nem tão pouco pelas más condições do asfalto. Na realidade, as solicitações são tantas estrada afora, os convites que a natureza nos faz são tão apelativos que podemos levar um dia inteiro para fazer uma curtíssima distância.