domingo, 24 de abril de 2016



Cais palafítico em dia de Páscoa


Cais palafítico
 A Costa da Galé a quem poderíamos chamar, com mais justiça, Costa de Ouro pela riqueza paisagística da sua arriba fóssil de tons ocre dourado pelo sol, beijada pelo mar de um azul intenso em períodos de acalmia, foi o cenário de um almoço pascal em dia de Páscoa solarengo. A areia da praia despida de corpos ávidos de bronze era um convite, não fosse um ventinho bem fresco a pedir para não tirar o casaco mas, mesmo assim, valeu o sol para tirar um pouco o mofo do Inverno de cima dos ossos. A passeata pelas bandas de lá do Sado teve como finalidade  a degustação de um saborosíssimo peixe atlântico, pescado à linha pelos pescadores do Carvalhal como nos foi garantido e quero acreditar que sim, uma vez que tinha um sabor muito fresco. De estômago feliz,  explorando a região em torno dos lamaçais do rio Sado, fomos encontrar o curioso porto palafitico existente desde os anos 50 do século passado, na Carrasqueira (Comporta).
Cais palafítico
Segundo consta, não se conhece nenhum na Europa. Não me admiro! O porto foi a única hipótese que os pescadores encontraram, no seu desenrasca de sobrevivência, para levar a cabo o  arrasto das redes e atracação  dos barcos que as lamas das margens do Sado impedem, em dias de águas mais baixas. Construído em madeira, este cais ramificado por entre o sapal, apresenta-se um pouco degradado e a área envolvente um pouco suja, no entanto pode dar excelentes fotografias ao cair do sol.

Manuela Santos

domingo, 17 de abril de 2016

 Antelope Canyon  - Arizona, USA

Antelope Canyon
Antelope Canyon
Percorríamos um terreno arenoso onde a vagetação rasteira espreitava aqui e acolá, sentados um pouco de esguelha, num jipe conduzido por um corpulento índio Navajo. Descendente  desses heróis dos filmes Western que alimentaram o meu imaginário  na infância e sobre quem sempre nutri uma simpatia, embora a versão de Hollywood, regra geral, os apresentasse como os maus da fita, este "herói" que nos conduzia, no jipe, era o nosso guia que nos iria mostrar o espectacular Antelope Canyon. Num terreno bastante irregular, mais parecia irmos em cima de um quatro patas do que  num 4×4, nos cerca de cinco quilómetros percorridos que nos deixaram as pernas um pouco adormecidas, mas que valeu o pequeno incómodo. No Arizona, em terras da nação Navajo que é somente a região onde se encontram os descendentes desse grande povo, agora com ocupações ligadas ao turismo, à venda de artesanato, vivendo em muito modestas casas de madeira espalhadas um pouco pelo território circundante do Grand Canyon, é onde se situa o Antelope Canyon. Uma formação rochosa em tons de argila avermelhada e estriada de tons mais claros, apresentando uma enorme fenda resultante dos caprichos da mão escultora da mãe natureza, o Antelope é uma  autêntica obra de arte. Entrámos na fenda, percorrendo corredores muito estreitos e sinuosos, esculpidos em formas peculiares com a autoria da chuva e do vento que penetram por onde podem, deixando autênticas maravilhas para o nosso olhar. Por volta do meio dia, quando a luz do sol incide, na vertical, sobre a fenda, fomos presenteados com jogos de luz qual espectáculo de deuses oferecido a nós simples mortais completamente pasmados. Excelentes fotos podem ser feitas por quem tenha máquina preparada para a situação uma vez que o uso de flash aqui não é muito adequado, o que infelizmente foi o nosso caso.

Manuela Santos

domingo, 10 de abril de 2016

Ester, uma aldeia com nome de mulher

Aldeia de Ester e Rio Paiva
Empoleirada nas arribas do rio Paiva, Ester é uma linda aldeia com nome de mulher. Que saudades da primeira vez que por lá veraneei! Que dizer de Ester de Baixo? Mais formosa que a sua irmã gémea, Ester de Cima, encontra-se separada dela pela estrada que liga Castro Daire a Alvarenga ( N225 ). Na época, a bela Ester de Baixo, ainda era uma pedra preciosa em estado bruto.
Aldeia de Ester 
Fiquei alojada em casa do tio João numa daquelas casas de xisto que salpicavam a encosta até ao rio Paiva e que combinava em simplicidade com o lugar e as suas gentes. Logo pela manhã era ouvir o canto dos pássaros, ver a sua dança ritmada entre uma e outra árvore, numa sintonia perfeita com a cadência musical das águas correntes do rio. Parecia que o fandango do meu Ribatejo se tinha transportado para aquele lugar encravado entre as serras de Montemuro e Arada. Descer ao rio era uma perfeita aventura. Terreno demasiado íngreme sem caminho construído senão o pisado pelos pés de quem ali passava diariamente, anos consecutivos, ladeira abaixo, ladeira acima, labutando para sobreviver. No seu passo lento, demasiado lento para os olhos de quem vive na grande cidade, lá vinha a tia Maria com um feixe de lenha à cabeça - Bom dia! - Booom diiia, respondia ela. A descida fazia-se sempre a travar e os joelhos iam reclamando, mas era recompensada pela beleza do lugar, pela travessia de milheirais românticos e acolhedores de amores furtivos, pelas vidas sem pressa, pela ausência de ruído, cortada apenas pelo "fandango ribatejano". Por fim chegar ao rio. Aí era a cereja em cima do bolo! Velhos moinhos de água, encantados pelo tempo que os quis poupar sem os arruinar completamente, deixando-lhes possibilidade de recuperação por autarquia amiga do património. Banho no rio não podia escapar nem a merenda preparada para a ocasião, nem as belas amoras silvestres colhidas ali mesmo à beira do rio Paiva. Hora de regressar...só era preciso coragem para a subida. 

Apaixonada pela zona, regressei vários anos para explorar outras aldeias ali próximas com suas singularidades e curiosidades patrimoniais. A interessante igreja de Ermida, datada do século XII, de arquitectura românica tal como a própria estatuária entretanto lamentavelmente pilhada, continua a merecer uma visita. O moinho recuperado e os vestigios de ponte medieval em Cabaços, alegram o rio que ali vai mais calmo e permite molhar os pés sobrecarregados pelas caminhadas. Ester foi crescendo, apareceram as casas de emigrante retornado, mas também se recuperaram casas antigas em xisto. A paisagem cortada pelo rio Paiva continua bela e fazer este pequeno percurso na N225 é ir ao encontro de um Portugal genuíno que nos convida a voltar.

Manuela Santos